Povoar
- Mathilde Ferreira Neves

- 15 de mar. de 2022
- 1 min de leitura
Atualizado: 8 de jun. de 2022
Perguntei-me algumas vezes o que levava crianças e velhos a fixarem, quietos, durante longo tempo, estaleiros de obras de construção civil. As máquinas, os materiais, os trabalhadores, o trabalho em si, o jogo da construção, nunca me cativaram. Isto até dar por mim, muito parada, a olhar o estaleiro que rodeia a minha casa nos últimos anos. Começou por ser a metamorfose geográfica a prender-me: um baldio de súbito revirado, até ficar irreconhecível e só se ver betão e a minha memória do sítio tornar-se lisa e opaca. Depois, foi a escala: a desmesura entre homens, equipamentos, maquinismos vários. Finalmente, o lado plástico dessa geografia em mutação deslumbrou-me, e dei por mim, assim, paradíssima a ver as obras acontecer, ao lado de velhos e crianças. Talvez as minhas razões não sejam as mesmas que as dos restantes, mas o estar parado, ali, faz-nos partilhar um mesmo tempo: o da inconstância, o da volubilidade, o da impermanência das coisas, e, simultaneamente, o da fixação disso.
Hoje, enquanto fotografava o estaleiro, ocorreu-me que é preciso saber o que veio antes do betão e perceber o que se segue ao betão, porque a despossessão das raízes e a despossessão do presente são bem capazes de nos tornar seres ineptos a habitar o que e onde quer que seja.

































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