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Memorabilia

  • Foto do escritor: Mathilde Ferreira Neves
    Mathilde Ferreira Neves
  • 21 de mar. de 2023
  • 2 min de leitura

Lembro-me do susto das sombras e da profundidade do escuro. Lembro-me de sentir a pulsação nas pálpebras e de a cabeça latejar. Lembro-me de não aceder a certas palavras e de ter o mesmo pesadelo recorrentemente. Lembro-me dos espelhos e das suas ameaças. Lembro-me de gritos, dores, lágrimas que não me pertenciam, mas que me arreganhavam os dentes. Lembro-me dos ossos me fulminarem e de eu achar que a culpa era minha. Lembro-me de as imagens me beijarem. Lembro-me de achar que certas músicas me corriam nas veias e de que o frio me assassinava pianíssimo. Lembro-me de não ter sítio e de ambicionar a transparência. Lembro-me de ficar quieta muito, muito tempo, e de me comover com a dança pulvérea nas margens de sol das casas. Lembro-me de agarrarem a minha mão para que o mundo não me esmagasse. Lembro-me de atirar aos pardais bagos de arroz e de o vazio vibrar ao ritmo das suas asas. Lembro-me da febre, de o corpo vacilar, do sangue escurecer como o ferro exposto à maresia. Lembro-me de não reconhecer a minha vida e de achar que outras crianças viviam por mim. Lembro-me das flores rasteiras e do terror de as esmagar. Lembro-me de o coração pesar tanto que era difícil erguer-me ou caminhar sequer. Lembro-me de falhar e de não ter outro remédio senão isso. Lembro-me de achar que a chuva me expurgava e de perceber que na lama havia equidade. Lembro-me de uma solidão absoluta, que inventei por andar desencontrada de mim mesma e dos outros. Lembro-me de brincar para fugir e de fugir para me esconder. Lembro-me de a violência ser definitiva. Lembro-me dos livros que toquei por dentro como se escrevessem em mim. Lembro-me de acreditar no que os adultos diziam e de sucumbir aos seus embustes. Lembro-me do tremeluzir magnético dos berlindes antes de caírem em buracos escavados na terra. Lembro-me do amor e dos seus gumes. E lembro-me de coisas que me calaram para sempre.


Marta María Pérez - Protección, 1990.






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