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Missiva I

  • Foto do escritor: Mathilde Ferreira Neves
    Mathilde Ferreira Neves
  • 26 de out. de 2022
  • 1 min de leitura

Morreste.

Dez dias depois, a Rússia invadiu a Ucrânia.

A mãe recusa a tua morte e costuma ver-te à janela, quase todos os dias.

As tuas plantas pereceram.

As daninhas surgiram sem dó nem piedade.

A casa que construíste, sem ti, não tem o menor sentido.

Mandei desactivar a tua linha telefónica. Agora, se te ligo, não dá sinal e uma senhora máquina informa-me, sem a menor emoção, que o teu número está inactivo e aconselha um outro de apoio para perceber o que se passa. Ora, por uma vez, eu sei o que se passa:

Morreste.

Vamos vender a nossa casa, cujas paredes pintaste connosco: ocre, azul cannes, verde fumo, branco incógnito. E eu não posso levar comigo as paredes. Só esta dor é transportável.

Foste sepultado na terra, pai. Tu gostavas de terra, especialmente da tua terra, só aí tinhas descanso.

Não vais ver os meus filhos crescer. E o meu companheiro, como posso amparar-lhe a falta que fazes?

Era-te insuportável a mentira. E a omissão? Omiti-te tanto, pai. Tal como tu, não tenho grande jeito para verbalizar emoções. Sabias do meu amor por ti? Sabias que a pouca força que tenho vem de ti? Uma resiliência inexplicável. E uma vontade de viver livre, sem grandes ambições. Vencer uma etapa ou outra, com as ganas todas, sem ser o pódio que importa mas o duelo entre o caminho e nós.

O gladíolo que me deste da última vez que estivemos juntos, plantei-o e cresceu, mas não floresceu. E tu, pai, irás florescer?



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