Ermos
- Mathilde Ferreira Neves

- 14 de mar. de 2022
- 1 min de leitura
Atualizado: 8 de jun. de 2022
Estou na sala de espera de um hospital enorme. Fixo intermitentemente o monitor de chamadas para consulta. Distraio-me, por vezes, com a massa de gente em meu redor.
Há, na entrada, um casal de idosos com ar distinto. A mulher está numa cadeira de rodas, coberta do pescoço aos pés por um cobertor. Todo o corpo do homem pende para ela.
A dado momento, uma enfermeira chama, em volume ascendente, repetidamente: “Dona Emília, Dona Emília”. A mulher, na cadeira de rodas, tem a cabeça suspensa para trás, a boca aberta, os olhos arregaladíssimos e parados. O homem, enquanto a enfermeira grita, ajoelha-se e pega-lhe nas mãos. Ajoelha-se e pega-lhe nas mãos. Ajoelha-se e pega-lhe nas mãos.
Sou chamada logo de seguida. Estanco no corredor, já sem saber do que me queixar à médica, a pensar que o desamparo não tem remédio.









Comentários