O mal que as estátuas nos fazem
- Mathilde Ferreira Neves

- 8 de abr. de 2022
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Numa rua ou praça, dentro de uma redoma, duas pessoas esbofeteiam-se ininterruptamente, sem dó nem piedade. Nada assinala a ocasião, o evento, a circunstância.
Transeuntes passam, podem ou não deter-se nas pressas impostas; crianças brincam/birram/riem sempre controladas pelos pais; cães correm/ladram/mijam sempre domados pela trela. O movimento natural da urbe não cessa, nem a violência dos que se expõem dentro da redoma. Tudo está supostamente seguro, o vidro deixa ver, mas não deixa passar. Expõe-se uma impotência transparente.
Frente a frente, as duas criaturas só cessam de esbofetear-se quando os corpos cedem ao esgotamento.
A resistência, às vezes, só pode ser literal.


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