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Despenhar-se continuamente

  • Foto do escritor: Mathilde Ferreira Neves
    Mathilde Ferreira Neves
  • 9 de mar. de 2022
  • 1 min de leitura

Atualizado: 10 de mar. de 2022


Passava a vida no quarto e raramente saía dele.

Tinha horror ao exterior, receava o desconhecido, desconfiava dos outros.

A sensibilidade dela dava para esfoliar pássaros.

Poucos a suportavam, muitos temiam-na.

Aprendera a conviver com o dentro, trazia-se acompanhada.

Entre a cama e a janela, havia um precipício.

Uma queda abrupta de muitos metros, quantos ao certo era impossível precisar.

De lá se elevava uma escuridão vertiginosa e um rumor capaz de inquietar almas penadas.

Espécie de poço sem fundo, não havendo poço nem fundo.

Era admirável o grau de incerteza com que vivia: um passo em falso, por mínimo que fosse, e não precisava de sair do quarto para se perder.

A sua audácia roçava a inconsciência.

Mesmo à noite, em pleno breu, erguia-se da cama para vigiar à janela algum murmúrio suspeito, ou para beber um trago de água fresca (de modo a soltar a boca do sono pesado que a cansava mais do que qualquer outra coisa).

O perigo, a queda sempre iminente, revigoravam-na.

A genica do sangue vinha-lhe daí: do precipício que lhe beijava os pés em permanência.

Escrevia poemas, para que o risco não fosse em vão.

Não foi publicada em vida.

E quando caiu, ninguém a resgatou.

É sabido: há precipícios insondáveis.







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